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O MITO DA PREEXISTÊNCIA DA ALMA EM PLATÃO

 

A obra Separation in the Evening, de Paul Klee

O mito da preexistência da alma em Platão

A alma aspira ao mesmo estado de identidade e imutabilidade, sendo também, como elas, imortal
Entre os numerosos conceitos elaborados ou esboçados por Platão em seus diálogos, um dos que mais marcaram a reflexão filosófica posterior foi, certamente, o de alma. Em diálogos fundamentais como Fédon, República e Fedro, o filósofo, afastando-se da mais remota tradição homérica e acolhendo algumas ideias filosóficas e religiosas mais recentes, propôs uma visão sobre o homem na qual a noção de alma desempenha papel central e está intimamente associada às principais características e aspectos de seu pensamento, voltado para a elaboração de uma ampla e consistente explicação sobre a realidade (ontologia), uma forma de conduta individual (ética) ou na cidade (política), além de uma compreensão do divino  (teologia). Em todas essas facetas de sua filosofia, razoavelmente distintas, mas sempre solidárias, Platão desenvolve uma análise da natureza humana que afirma forte distinção entre a alma, como sede da identidade, do pensamento e da deliberação, e o corpo, como seu invólucro, frequentemente a pôr-se como obstáculo ao pleno exercício de suas capacidades.
Essa distinção ganha seus fundamentos metafísicos na célebre doutrina das Formas. Segundo a doutrina, desenvolvida nos diálogos mencionados e em alguns outros, existem realidades invisíveis e inacessíveis aos sentidos, apreensíveis apenas pelo pensamento. Ora, o pensamento é atividade da alma, e esta, para poder conhecer plenamente tais realidades, deve alcançar um estado de completa independência das limitações impostas pelas sensações, as quais estão intimamente relacionadas a desejos e paixões resultantes de necessidades corporais, como fome, sede e sexo.
Por isso, a alma só alcança esse pleno conhecimento da suprema realidade suprassensível, quando está livre das amarras corporais – depois da morte, que, a bem dizer, consiste nessa libertação. Estamos, portanto, perante a tese de que a alma sobrevive à morte, que é, afinal, apenas a corrupção e desaparecimento do corpo. Com a morte, a alma conhece as Formas e nelas se reconhece, em alguma medida, porque a alma tem afinidade e parentesco com elas, e por isso pode conhecê-las. O corpo, ao contrário, é como os outros seres sensíveis, que estão em constante mudança e passam por processos de geração e corrupção. As Formas, por sua vez, são sempre idênticas, imutáveis e eternas. A alma aspira ao mesmo estado de identidade e imutabilidade, sendo também, como elas, imortal.
A imortalidade da alma, uma das teses mais características e influentes do platonismo, envolve, assim, toda uma visão da realidade, uma metafísica que privilegia o conhecimento do que é puramente inteligível e desvaloriza os eventos relacionados à vida corporal e sensível.
O conceito de Forma, um dos mais polêmicos do pensamento platônico, está no centro dessa visão da realidade: se os meus sentidos me informam, por exemplo, que determinados objetos vistos, ouvidos, tocados etc., são grandes ou pequenos, isso só é possível porque existem realmente – e não apenas em meu intelecto, como objeto de pensamento – as Formas do Grande e do Pequeno, das quais esses objetos participam e que são as causas de sua  geração. Ora, um objeto “grande”, em determinada relação, pode também ser “pequeno” em outra, mas as Formas do Grande e do Pequeno não sofrem dessa limitação: elas são,  respectivamente, o “Ser Grande” e o “Ser Pequeno”, a Grandeza e a Pequenez, e são, cada uma, exclusivamente grande e pequena. O conhecimento do suprassensível consiste, assim, na posse de verdades necessárias e eternas.
Existem também realidades como as Formas do Bem, do Justo e do Belo, além de vários outros valores éticos e políticos. Isso fundamenta toda uma teoria da ação moral, segundo a qual é possível, e mesmo necessário, agir com justiça, porque esta é real, tornando possível e necessária a existência de atos justos. Com isso, propõe-se um modo de conduta pelo qual viver de modo justo não é apenas cumprir um dever que nos é imposto, é seguir o caminho que conduz nossa alma à realidade que lhe cabe, como alma, conhecer, é adquirir uma condição moral adequada para esse conhecimento e, ao possui-lo, invariavelmente exercitá-lo. Para ter conhecimento das Formas, a alma deve controlar o corpo e viver uma vida, na medida do possível, voltada para valores como justiça e virtude, porque isso tem parte com sua própria natureza, caracterizada pela unidade, imutabilidade e harmonia típicas das Formas.
No mesmo sentido, unidade e harmonia da alma consistem num estado de equilíbrio entre suas partes, no qual a parte racional, naturalmente dotada da capacidade de comandar, controla, com o auxílio da parte impetuosa, dotada de coragem, uma terceira parte, a dos desejos, que, se mal dirigida, pode levar ao predomínio das paixões. A alma é como uma carruagem, conduzida por um cocheiro que comanda dois cavalos, um, dócil e bom, outro, indócil e mau.
Consequentemente, uma cidade justa nada mais é do que uma alma justa, agora em maiores proporções: também nela, a parte racional deve governar as outras duas partes, para que se preserve sua unidade e harmonia. Para construir essa doutrina, aqui grosseiramente esboçada, Platão se serve, em vários momentos desses diálogos, de procedimentos argumentativos rigorosos, com pretensões demonstrativas, desenvolvidos por Sócrates, a personagem sempre principal, e seus interlocutores.
Contudo, tratando-se de assuntos tão afastados de nossa experiência sensorial e que, em nossa limitada condição de almas sujeitas a corpos, são de difícil compreensão, como a imortalidade da alma ou realidades suprassensíveis, Platão recorre a um expediente importante: expressar-se também por meio de mitos ou narrativas típicas da tradição poética – outra maneira, mais familiar ao leitor, para abordar temas de assimilação tão complexa.
Em Górgias, Fédon e no último livro de República, narrativas míticas nos descrevem o que ocorre após a morte: as almas chegam ao Hades, região subterrânea, levando consigo as marcas de suas vidas, de suas naturezas e escolhas. Almas excessivamente presas aos desejos corporais sofrem com esse percurso, desnorteadas. O contrário ocorre com almas que viveram com moderação e temperança.
Um tribunal as julga e determina punições ou recompensas, conforme tenham vivido justa ou injustamente, de modo a torná-las melhores. É-lhes concedido, então, o direito a escolher uma nova vida, escolha de sua inteira responsabilidade. Naturalmente, serão guiadas pelos interesses e preferências morais que adquiriram em vidas anteriores. Almas ambiciosas escolherão vidas de riqueza e honra, porque não sabem fazer de outro modo, mas almas justas e boas preferirão a simplicidade. Terão, assim, cada uma a seu modo, as condições para seu aperfeiçoamento, mesmo que seja com sofrimento e dor. Almas plenamente justas são recompensadas com a felicidade nas Ilhas dos Bem-Aventurados.
No diálogo Timeu, Platão se volta para uma questão de que pouco tratou nesses diálogos: a origem do mundo. O discurso que explica a geração do mundo e do homem, porque se refere a uma realidade sensível que inevitavelmente sofre mudanças, só pode ser uma narrativa ou mito verossímil, nunca absolutamente verdadeiro. Afirma-se a existência de um Demiurgo que molda os seres corporais tomando as Formas eternas como modelos. A criação do mundo só é possível se nele existir uma alma dotada de pensamento, que o torne um ser vivo e possibilite que nele existam outros seres vivos dotados de alma e pensamento. A Alma do Mundo é princípio de vida e de inteligibilidade, por obra do Demiurgo, que a fez de modo a poder governar seu corpo, o mundo sensível. Há, por isso, uma simetria entre ela e as almas dos homens.
Assim como o mundo não seria o que é sem a atuação nele de sua alma, assim também deve ser para nós. Por isso, o comando do corpo pela alma proporciona uma vida justa; o contrário, uma vida injusta. A presença de uma causa divina, demiúrgica, permite à alma humana, ao viver com virtude e conhecer os modelos que essa causa imitou, tornar-se feliz.
Tudo isso pelo princípio de que é bom e belo que assim seja. Eis, para o filósofo, a explicação mais racional que se pode dar para os eventos naturais, o mundo e nós mesmos. Proporção e harmonia são expressões do bem e do belo, e foi assim que o Demiurgo moldou a realidade do mundo, olhando para as Formas. O homem deve agir em conformidade com isso, de modo que sua alma preserve essa proporção, cuidando do corpo e de si mesma.

Roberto Bolzani Filho*

 *professor de filosofia da USP

Fonte:http://revistacult.uol.com.br/home/2013/01/

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